A trilha foi montada com cuidado: vinte cursos do catálogo, organizados por tema, com carga horária total de quarenta horas. Três meses depois do lançamento, o relatório mostra muita gente no primeiro curso, menos no segundo, e quase ninguém depois do quinto.
O problema raramente é falta de interesse. É que a trilha foi montada a partir do que existia, e não a partir de onde a pessoa precisava chegar.
O que é uma trilha de aprendizagem?
É uma sequência de etapas de aprendizado que leva uma pessoa de um ponto a outro: de recém-chegada a autônoma na função, de analista a coordenadora, de quem não conhece o sistema a quem opera sem ajuda. A palavra importante é sequência. Uma pasta de cursos sobre um tema é um catálogo; uma trilha tem começo, ordem e chegada.
Por que tanta trilha fica pela metade?
Por três motivos que se repetem:
- É longa demais para o que promete. Katy Jordan analisou em 2015 as taxas de conclusão de cursos online abertos e encontrou uma relação clara: quanto mais longo o curso, menor a proporção de quem chegava ao fim.
- Não tem prática. Etapa após etapa de vídeo e leitura, sem nada para fazer, cansa e ensina pouco.
- Não tem porquê visível. A pessoa não sabe o que vai conseguir fazer ao terminar, nem vê o próprio avanço.
Como montar uma trilha que as pessoas terminam?
Em quatro decisões, nesta ordem.
1. Qual é o ponto de chegada?
Escreva o que a pessoa vai saber fazer ao fim, em ações observáveis. “Conhecer o processo de vendas” não é ponto de chegada. “Conduzir sozinha uma visita de diagnóstico ao cliente, do agendamento ao relatório” é. Tudo o que não ajuda a chegar lá sai da trilha, por melhor que seja.
2. Qual é a sequência?
Do mais simples ao mais aplicado. Um desenho que funciona para a maior parte das trilhas:
| Etapa | O que acontece | Exemplo |
|---|---|---|
| Base | O essencial para começar | O que é, para que serve, vocabulário |
| Demonstração | Ver como se faz | Vídeo de alguém fazendo, caso comentado |
| Prática guiada | Fazer com apoio | Exercício com modelo, simulação |
| Prática real | Fazer no trabalho | Tarefa real, com retorno do gestor |
| Consolidação | Retomar e fechar | Revisão, caso mais difícil, certificação |
3. Qual é o tamanho de cada etapa?
Pequeno. Richard Mayer e Paul Chandler mostraram em 2001 que dividir uma explicação em partes que a pessoa avança no próprio ritmo melhora a compreensão em relação à mesma explicação corrida. Na trilha, isso quer dizer etapas que cabem numa pausa do trabalho, cada uma com um objetivo só. Quando usar conteúdo muito curto, e quando ele atrapalha, está em microlearning funciona?.
4. Quais são os intervalos?
Espaçados, e não tudo de uma vez. A prática distribuída no tempo retém mais do que a prática concentrada, como mostrou a síntese de Nicholas Cepeda e colegas com 317 experimentos. John Dunlosky e colegas avaliaram em 2013 dez técnicas de estudo e classificaram só duas como de alta utilidade: a prática distribuída e a prática de lembrar, que é responder perguntas sobre o conteúdo. Uma trilha que libera as etapas em intervalos e faz perguntas em cada uma usa as duas.
O que colocar em cada etapa?
Três elementos mínimos:
- Um objetivo dito para a pessoa. “Ao fim desta etapa, você consegue…”
- Algo para fazer. Exercício, caso, pergunta, tarefa no trabalho.
- Um retorno. A resposta comentada, o gabarito, a conversa com o gestor.
E um marco visível de avanço: a pessoa precisa ver onde está e quanto falta.
Posso aproveitar os cursos que a empresa já tem?
Pode, e deve, com critério. Para cada curso existente, pergunte: ele leva a pessoa mais perto do ponto de chegada? Se sim, entra na etapa certa, às vezes recortado. Se não, fica fora, mesmo que seja bom. O que falta é produzido. Costuma ser menos do que se imagina, e quase sempre é a prática.
Como saber se a trilha funcionou?
Não pela taxa de conclusão sozinha. Terminar a trilha mostra que a pessoa passou pelas etapas; o que importa é se ela faz, no trabalho, o que o ponto de chegada prometia. Como medir isso está em como medir se o treinamento mudou o trabalho.
O programa completo em que a trilha se encaixa está no guia de educação corporativa. E desenhar a trilha, produzir o que falta e publicá-la no ambiente onde as pessoas estudam é o que fazemos em trilhas de aprendizagem.