Falar com a gente
Mesa de trabalho com a apostila de um treinamento meio soterrada por pedidos, planilhas e post-its do dia a dia.

Início / Blog / Sustentação e reforço

Sustentação e reforço

Por que o treinamento some em 30 dias e o que faz ele durar

Miriam Damasceno, Diretora Executiva

Em poucas palavras

O treinamento some porque a memória descarta o que não é usado: sem revisão, boa parte do conteúdo se perde em dias. O que faz ele durar não é um curso melhor, é o que acontece depois: prática espaçada no trabalho, gestor que cobra e acompanha, e medição de aplicação, não de presença.

Toda área de T&D conhece a cena. O treinamento foi bem avaliado, a turma saiu animada, o gestor elogiou. Quatro semanas depois, a rotina é a mesma de antes e ninguém lembra direito do que foi combinado na sala.

Não é falta de vontade de quem participou, e quase nunca é culpa do conteúdo. É o jeito como a memória funciona quando nada acontece depois do curso. A boa notícia é que esse processo é conhecido há mais de um século, e o que segura o aprendizado também.

Por que a gente esquece tão rápido o que aprendeu no treinamento?

Retrato em preto e branco de Hermann Ebbinghaus, homem de barba cheia e pincenê, de terno escuro.
Hermann Ebbinghaus (1850 a 1909), o primeiro a medir o esquecimento.Autor desconhecido, antes de 1909. Domínio público, via Wikimedia Commons. Fonte

Porque o cérebro guarda o que usa e descarta o que fica parado. O primeiro a medir isso foi o alemão Hermann Ebbinghaus, no fim do século XIX, e o experimento dele foi repetido em 2015 por Jaap Murre e Joeri Dros, da Universidade de Amsterdã, com o mesmo método. Ebbinghaus tinha publicado os resultados em 1885, no livro Über das Gedächtnis (Sobre a memória).

Gráfico impresso de 1885, marcado Fig. 2: uma linha liga oito séries numeradas de I a VIII e sobe acima de uma linha tracejada de média.
Uma das figuras originais de Über das Gedächtnis (Sobre a memória), de 1885. Não é a curva do esquecimento: aqui Ebbinghaus compara oito séries do experimento com a média, a linha tracejada m.Hermann Ebbinghaus, 1885. Domínio público, via Wikimedia Commons. Fonte

A medida usada é a economia no reaprendizado: quanto mais rápido a pessoa reaprende uma lista que já tinha decorado, mais daquilo ainda estava na memória. Na replicação, a economia foi de 58% depois de 20 minutos, 34% depois de um dia e só 4% depois de 31 dias:

Quanto da lista ainda estava na memória

Quanto da lista ainda estava na memória: 20 min, 58%; 1 hora, 45%; 1 dia, 34%; 2 dias, 27%; 6 dias, 18%; 31 dias, 4%0%25%50%75%100%58%20 min45%1 hora34%1 dia27%2 dias18%6 dias4%31 dias
Economia no reaprendizado ao longo de 31 dias: 58% depois de 20 minutos, 34% depois de um dia e 4% depois de um mês. Intervalos fora de escala.Dados de Murre e Dros (2015), PLOS ONE. Gráfico da Criação Ilimitada. Fonte

Em um mês, a vantagem de já ter estudado praticamente desaparece. Vale uma ressalva honesta: o experimento usa sílabas sem sentido, justamente para medir a memória sem a ajuda do significado. Conteúdo com sentido, ligado ao trabalho da pessoa, cai mais devagar. O formato da curva, porém, é o mesmo: a perda é mais forte nos primeiros dias e continua depois.

Quanto do treinamento as pessoas realmente levam para o trabalho?

Participantes que aplicam o que aprenderam

Participantes que aplicam o que aprenderam: Logo depois, 62%; 6 meses, 44%; 1 ano, 34%Logo depois62%6 meses44%1 ano34%
Estimativa de profissionais de treinamento de 150 organizações.Dados de Saks e Belcourt (2006), Human Resource Management. Gráfico da Criação Ilimitada. Fonte

Menos do que o dia do curso sugere, e cada vez menos com o passar do tempo. Alan Saks e Monica Belcourt ouviram profissionais de treinamento de 150 organizações sobre quantos participantes aplicam o que aprenderam. A estimativa foi de 62% logo depois do curso, 44% seis meses depois e 34% depois de um ano.

É uma percepção de quem organiza o treinamento, não uma medição direta de comportamento. Mesmo assim, o desenho é claro: um terço do que parecia aprendido na saída da sala já não aparece no trabalho meio ano depois.

O número de que só 10% do treinamento é aplicado é verdade?

Não. Esse dado aparece em apresentação, proposta e artigo há décadas, e não existe pesquisa por trás dele. Kevin Ford, Stephen Yelon e Abigail Billington rastrearam a origem em 2011 e chegaram a um artigo de 1982 em que o autor fazia uma estimativa pessoal, quase uma provocação. Dali em diante, dezenas de publicações passaram a repetir o número como se fosse resultado medido.

Vale a pena desconfiar dele por dois motivos. O primeiro é que ele não se sustenta. O segundo é que ele serve de desculpa: se só 10% fica mesmo, qualquer resultado parece normal e ninguém precisa mudar nada no desenho do programa.

O que faz o aprendizado durar depois do treinamento?

A pesquisa aponta para o que acontece fora da sala, antes e depois dela. No mesmo estudo de Saks e Belcourt, as atividades feitas no ambiente de trabalho antes e depois do curso tiveram relação mais forte com a aplicação do que as atividades feitas durante o treinamento. Na prática, quatro coisas fazem diferença.

Revisão espaçada, e não uma revisão só

Rever o conteúdo em intervalos funciona melhor do que concentrar tudo de uma vez. Nicholas Cepeda e colegas reuniram 317 experimentos sobre isso e acharam um detalhe útil: o intervalo ideal entre revisões cresce conforme o tempo pelo qual a pessoa precisa lembrar. Para um conteúdo que tem de durar meses, os reforços começam próximos do curso e vão se espaçando nas semanas seguintes. É a lógica de um plano de reforço, com cada retomada marcada no calendário e não deixada para quando der. Como montar um, semana a semana, está em plano de reforço pós-treinamento.

Um gestor que sabe o que foi ensinado

A meta-análise de Brian Blume e colegas, com 89 estudos, colocou o apoio do ambiente de trabalho, chefia e colegas incluídos, entre os fatores que mais pesam para o treinamento virar prática. O problema é que o gestor raramente sabe o que o time aprendeu nem o que perguntar depois. Um kit do gestor, com o resumo do conteúdo e perguntas prontas para a conversa com o time, resolve boa parte disso sem exigir que ele faça o curso inteiro. O que cabe ao gestor, antes e depois, está em qual é o papel do gestor depois do treinamento.

Um momento fixo para praticar no trabalho

Gestora aponta um quadro de acompanhamento com colunas e checks, enquanto três pessoas do time em pé acompanham, num corredor de estoque.
Ritual de acompanhamento: curto, com data certa, perto de onde o trabalho acontece.

Aprendizado que não aparece na rotina volta a ser teoria. Pequenos encontros recorrentes, em que o time conta onde aplicou e onde travou, criam a ocasião que falta. É o papel dos rituais de acompanhamento: curtos, com data certa e ligados a uma situação real do trabalho.

Medir aplicação, e não presença

Lista de presença e nota de satisfação dizem se o curso aconteceu e se agradou. Não dizem se alguém mudou o jeito de trabalhar. Enquanto só isso é medido, o treinamento parece sempre ter dado certo. Perguntar ao gestor e ao participante, semanas depois, o que passou a ser feito de outro jeito é o que mostra onde o programa precisa de ajuste. A medição de aplicação existe para isso.

Como saber se o seu treinamento está sumindo?

Três sinais costumam aparecer juntos:

  • O programa termina no último dia de curso, sem nada marcado depois dele.
  • Os gestores não sabem dizer o que o time aprendeu nem como vão acompanhar.
  • A avaliação para na reação: nota do curso, presença e comentários na saída da sala.

Se os três aparecem, o investimento está bancando o dia do treinamento e muito pouco do que deveria vir depois.

Por onde começar?

Não precisa refazer o curso. O caminho mais curto é olhar para as quatro semanas depois dele e decidir o que vai acontecer em cada uma: qual revisão, qual conversa com o gestor, qual momento de prática, qual pergunta de acompanhamento. É isso que a gente chama de sustentação e reforço, a camada que fica entre o fim do treinamento e o resultado que a empresa esperava dele. O guia completo está em sustentação de aprendizagem.

Perguntas frequentes

Perguntas que costumam aparecer

Quanto do treinamento as pessoas realmente aplicam no trabalho?

Num levantamento com profissionais de treinamento de 150 organizações, a estimativa foi de 62% aplicando logo depois do curso, 44% seis meses depois e 34% depois de um ano. É percepção de quem organiza o treinamento, não medição direta, mas a queda ao longo do tempo aparece com clareza.

É verdade que só 10% do treinamento é aplicado?

Não existe pesquisa por trás desse número. Ele nasceu de uma estimativa num artigo de 1982 e passou a ser repetido como dado. Uma revisão de 2011 rastreou a origem e mostrou que as publicações que o citam não têm medição que o sustente.

Treinamento online é esquecido mais rápido que o presencial?

O formato pesa menos do que o que acontece depois. A curva de esquecimento vale para os dois, e o que muda o resultado é haver revisão espaçada, prática no trabalho e acompanhamento do gestor. Um curso online com reforço tende a durar mais que um presencial sem nada depois.

Com que frequência devo reforçar o conteúdo depois do treinamento?

Não existe um intervalo único. A síntese de Cepeda e colegas mostra que o intervalo ideal entre revisões cresce conforme o tempo pelo qual a pessoa precisa lembrar. Na prática, reforços mais próximos logo depois do curso e cada vez mais espaçados nas semanas seguintes.

Qual é o papel do gestor para o treinamento não se perder?

É um dos fatores que mais pesam. A meta-análise de Blume e colegas, com 89 estudos, encontrou o apoio do ambiente de trabalho, incluindo chefia e colegas, entre os preditores mais fortes de o treinamento virar prática. Gestor que pergunta, cobra e dá espaço para testar muda o resultado.

Como a Criação resolve isso · Sustentação e reforço

Seu treinamento termina no último dia de curso?

A gente desenha o que vem depois dele, com reforço, rotina com o gestor e medição de aplicação, para o investimento não sumir em um mês.

Sustentação e reforço: O que mantém o comportamento de pé depois que o treinamento acaba.

Resposta em até um dia útil.