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Diagnóstico e competências

Levantamento de necessidades de treinamento: guia passo a passo

Miriam Damasceno, Diretora Executiva

Em poucas palavras

O levantamento de necessidades de treinamento parte de um resultado que a empresa quer mudar, identifica o comportamento que produz esse resultado, verifica quem precisa mudar e confirma se a distância é mesmo de conhecimento e habilidade. Se o problema for processo, ferramenta ou incentivo, treinamento não resolve. Pular essa etapa é ensinar o que alguém achou importante.

Todo fim de ano, o RH manda aos gestores um formulário: “Quais treinamentos sua equipe precisa no próximo ano?”. As respostas voltam como lista: Excel avançado, comunicação assertiva, liderança, gestão do tempo, inteligência emocional. O plano anual é montado com essa lista. Um ano depois, ninguém sabe dizer que problema cada curso deveria ter resolvido.

O levantamento de necessidades existe para inverter a ordem: primeiro o problema, depois o curso, se o curso for mesmo a resposta.

O que é levantamento de necessidades de treinamento?

É a etapa que decide o que ensinar, a quem e por quê. Também chamada de LNT ou DNT, ela responde a quatro perguntas antes de qualquer curso ser desenhado:

  1. Que resultado a empresa quer mudar?
  2. Que comportamento produz esse resultado?
  3. Quem precisa mudar o comportamento?
  4. A distância é de conhecimento e habilidade, ou é de outra coisa?

Eduardo Salas e colegas, na revisão que fizeram em 2012 sobre o que a ciência diz para quem pratica T&D, colocaram a análise de necessidades como o primeiro passo de um treinamento que funciona. Não por burocracia: é ela que liga o curso a um resultado.

Quais são as três análises do levantamento?

A divisão clássica, proposta por William McGehee e Paul Thayer nos anos 1960, continua a mais útil:

AnálisePerguntaFontes de dado
OrganizacionalOnde a empresa precisa de mudança, e o ambiente permite a mudança?Estratégia, indicadores, metas, mudanças previstas
Da tarefaO que o trabalho exige, e como se faz bem?Descrição de função, observação, quem faz bem
Da pessoaQuem precisa desenvolver o quê?Desempenho, avaliações, testes, gestores

Muita consulta anual pula as duas primeiras e vai direto à terceira, perguntando quem precisa de qual curso. O resultado é uma lista de cursos sem problema por trás.

Como fazer o levantamento, passo a passo?

1. Qual é o resultado a mudar?

Comece por um indicador que a empresa já acompanha e que piorou, que está abaixo da meta ou que vai ser afetado por uma mudança: perdas, retrabalho, tempo de atendimento, reclamações, acidentes, saída de quem acabou de entrar. Sem esse ponto de partida, o levantamento vira pesquisa de interesse.

2. Que comportamento produz esse resultado?

Vá ao trabalho. Observe quem faz bem e quem tem dificuldade, converse com os dois grupos. Robert Brinkerhoff propôs olhar para os extremos na avaliação de treinamento, e o mesmo vale aqui: a diferença entre quem tem o melhor resultado e quem tem o pior costuma mostrar os poucos comportamentos que importam.

Pessoa de costas, com prancheta na mão, observando do corredor uma área de produção a alguns passos de distância.
Levantamento de necessidades se faz no trabalho, olhando quem faz bem e quem tem dificuldade.

3. Quem precisa mudar?

Nem sempre é todo mundo. Às vezes é um turno, uma região, quem entrou há menos de seis meses, ou os líderes, e não as equipes. Treinar todos para um problema de poucos gasta dinheiro e desgasta a paciência de quem já faz bem.

4. É mesmo caso de treinamento?

Esta é a pergunta que mais economiza. Se a pessoa saberia fazer caso a vida dela dependesse disso, o problema não é de conhecimento. Pode ser processo que atrapalha, ferramenta que falta, meta que incentiva o contrário ou consequência que não existe. Robert Mager e Peter Pipe organizaram esse raciocínio num roteiro de análise de desempenho que continua usado há décadas. Os sinais estão em quando o treinamento não resolve.

5. O que a pessoa precisa saber fazer ao fim?

Transforme a distância em objetivo observável. “Melhorar o atendimento” não serve. “Resolver no primeiro contato as cinco solicitações mais frequentes, sem transferir” serve, e já diz como medir depois.

6. Como devolver o diagnóstico?

Num documento curto: o problema, o comportamento, o público, o que é de treinamento, o que não é e a quem cabe, e o indicador que vai mostrar se funcionou. A parte do que não é treinamento é tão valiosa quanto a outra, porque evita um curso que não teria como dar certo.

Que técnicas usar para coletar os dados?

TécnicaServe paraCuidado
Análise de indicadoresAchar onde está o problemaIndicador mostra onde, não por quê
Entrevista com gestoresEntender o contextoTende a trazer pedido de curso
Entrevista com quem fazAchar o comportamento realOuvir quem faz bem e quem tem dificuldade
Observação do trabalhoVer o que não é ditoLeva tempo, mas é a mais reveladora
QuestionárioOuvir muita genteSó depois das entrevistas, com perguntas melhores
Teste de conhecimentoConfirmar a distânciaMede saber, não fazer

Quando a necessidade é descrever as competências de uma função inteira, entra o mapeamento de competências. Quando o ambiente de trabalho é parte da suspeita, a pesquisa de clima ajuda a separar as causas.

Quais erros tornam o levantamento inútil?

  • Perguntar que curso a pessoa quer. Vem uma lista de temas da moda.
  • Não definir o indicador. Sem ele, não há como saber depois se funcionou.
  • Ouvir só os gestores. Quem faz o trabalho vê o que o gestor não vê.
  • Esconder o que não é treinamento. O curso vai ser cobrado por um problema que ele não podia resolver.

Herman Aguinis e Kurt Kraiger lembraram em 2009 que os benefícios do treinamento dependem de como ele é feito. O levantamento é onde essa dependência começa. O programa inteiro, do diagnóstico à medição, está no guia de educação corporativa. E fazer o levantamento com indicadores, observação e conversas, e com franqueza sobre o que não é caso de treinamento, é o que entregamos em levantamento de necessidades.

Perguntas frequentes

Perguntas que costumam aparecer

Qual a diferença entre LNT e DNT?

Nenhuma de fundo. LNT (levantamento de necessidades de treinamento) e DNT (diagnóstico de necessidades de treinamento) são nomes usados para a mesma etapa. Algumas empresas chamam de DNT quando a análise é mais profunda, com entrevistas e observação, e de LNT quando é uma consulta aos gestores, mas não há padrão.

Com que frequência fazer o levantamento de necessidades?

Uma vez por ano, para montar o plano anual, e sempre que surgir uma mudança grande: novo sistema, novo processo, nova estratégia, um indicador que piorou. O levantamento anual feito só por formulário para os gestores tende a virar lista de cursos pedidos, e não de problemas a resolver.

Formulário para os gestores é suficiente?

Serve como ponto de partida, mas sozinho costuma trazer pedidos de curso, e não problemas. Complete com dados que a empresa já tem, como indicadores, reclamações e erros, com observação do trabalho e com conversas com quem faz bem e quem tem dificuldade.

Quanto tempo leva um levantamento de necessidades?

Para um problema e um público definidos, de duas a quatro semanas: análise dos dados, entrevistas, observação e a devolutiva. Para um plano anual da empresa inteira, mais tempo. O tamanho depende de quantas funções e locais entram, e não da complexidade do formulário.

Como a Criação resolve isso · Diagnóstico

Seu plano de treinamento nasce de problemas ou de pedidos de curso?

A gente faz o levantamento de necessidades a partir dos indicadores, da observação do trabalho e das conversas com quem faz, e diz com franqueza o que não é caso de treinamento.

Levantamento de necessidades: Cruza os três anteriores num retrato do que precisa mudar, e por quê.

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